Rafael

Rafael (Livro A Subjetividade na Esquizofrenia)
Figura 86
Parece reconhecer o estado difícil pelo qual está passando, pois seu interior está quebrado, despedaçado, "Interior" (Fig.86-A), a consequência, um isolamento crescente "Eu, sozinho" (Fig.86-B), numa posição fetal, mas não deixando de idealizar sua infância aparentemente feliz em "Casa de infância" (Fig.86-C).
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Um encontro. De um lado, um profissional, supostamente dono dos conhecimentos, capaz de fazer diagnósticos, de instituir tratamentos. Tudo lógico, tudo racional. Do outro lado, perplexidade, um aparente desconhecimento do que estaria ocorrendo; poucas palavras, muito silêncio, um olhar distante dirigido para o nada. Quase nenhum relato, quase nenhum contato real.

Encontrada uma forma de comunicação, uma linguagem ainda com poucas palavras, sobretudo poesias, desenhos… As posições se invertem; todo um conhecimento vem do outro, transborda numa torrente de emoções, como um “trem”. Onde aparentemente não havia vida, é lá que ela transparece.

Trecho do documentário “Arte, Ciência e um Divã”

Poesias

Caminhos

Caminhos

Sou metáfora dos signos
Pertenço ao tempo
Matéria dotada de intelecto
Todas as ideias saem prontas
Devorando o frágil pensamento
Dentro do escudo ósseo craniano
A vida e seus três lados
E nenhum deles, o caminho
Toda a realidade parte de um princípio,
Ilusão
Além do bem e do mal
Consciência crítica
A vida hoje é artificial
Um produto novo
Não funciona, está quebrado
E uma outra hora
Um novo tempo
Tempo de ir para fora
De fazer acontecer
O agora e nada mais.

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Um ponto, dois pontos, três pontos, vários pontos… Como ligá-los?

Subitamente não um ponto, ou alguns deles, parece importar, ter um significado, mas um ritmo, segundo Rafael um “trem”.

Cada palavra, cada relato, cada conceito…parece pelo menos inicialmente,um entendimento que os dicionários, a língua inglesa, a linguagem científica dizem ser quase únicos. Acompanhado de emoções, sentimentos, isto tudo parece ser desmentido, ampliado, redimensionado!

Deste trabalho, dos vários Rafaéis, de mim mesmo procuro uma essência que, à semelhança de Rafael, acabo desconfiando nem existir. Parece que os vários pontos-linhas-realidade só se tornam mais concretos, reais, quando despidos de emoções. Ou, segundo Rafael, “só há sentido quando não existem sentimentos”. O interessante é que mais frequentemente vivo mais o “efêmero oposto”. O problema é que quando a “realidade” finalmente não se evidencia, nos transformamos naquilo que Rafael chamou de “metáfora dos signos”. A matéria, às vezes até com violência, acaba se impondo. A “realidade”. Sua percepção, no entanto, pode continuar sendo uma quase ilusão, dependendo demais dos nossos sentidos.

Quanto à utilidade do contato como o que tivemos com Rafael, acreditamos na sua validade. Mais cérebro, mais atividade mental acaba ocorrendo. Acaba na procura de um significado para a vida, ou pelo menos que haja um sentido para a procura.