Exposição Criatividade e Loucura

Data: 17 de novembro de 2011 | Local: Fundação Rocha Brito – Campinas

Apoio e Realização: Fundação Rocha Brito, Editora Zagodoni

“A única diferença entre eu e o louco é que eu não sou louco” (Dalí)

Ou seja,  ele penetra na desorganização da sua mente, na energia que daí surge, emoções, na procura de velhos e novos caminhos, criatividade, percursos e linguagens dentro de sí e na relação com o mundo.

Ele então pode se sentir saudável, “vivo”.

Este vaivém entre estes estados de mente parece essêncial para o ser humano que além do instinto tem a sobrecarga ou alívio da educação, civilização, cultura, que lhe são impostos.

A procura de uma linguagem para estes momentos e transições, as vezes tão dolorosos, talvez sejam alguns dos principais objetivos da Psiquiatria e da Psicologia.

Nesta exposição o encontro do profissional com o seu paciente é focalizado, muitas vezes quando só o falar não era suficiente.

Quem é o esquizofrênico? Quem é a pessoa que tem esse diagnóstico? Será que ele é tão diferente dos “normais”, com ou sem aspas? O que se esconde por trás de suas características?

Num diálogo quase impossível, tenta-se uma aproximação. O contato se prolonga por anos.

Desenhos, poesias, silêncios preenchem as lacunas em que o falar, ou talvez o ouvir, estava prejudicado.


Veja como foi o evento


Obras e Artistas

Alegria Musical
Alegria Musical

ALEGRIA MUSICAL

L. M. F. S, representação de um sonho em argila, 2011.

[ Livre Arbítrio ] = Alegria Musical  |  Ação => Atitude Correta

Lê-se:  O limite do livre arbítrio quando a ação tende a atitude correta é uma alegria musical!

Em uma noite bem dormida…

Eu estava na casa que foi da minha avó, mas agora, ela estava completamente reformada. Estavam comigo mais quatro pessoas, todas de branco.

Nosso grupo parecia estar uniformizado, tínhamos em mãos algo da cor branca que parecia uma arma, um canhão manual ou outro tipo de “Trabuco”. Estávamos lá para assaltar um carro forte que estava chegando.

Por momentos eu vi “eu mesmo” ali, naquela atividade desviada, e não gostava nem um pouco daquilo.

No grupo havia um cara, de uns 30 a 40 anos, cabelo escuro, baixinho, que era muito agressivo comigo e com todos. Eu não deveria estar lá, não queria estar lá e não queria tomar parte naquilo. Estava angustiado.

Resolvi me expor ao perigo e cair fora. A tensão fazia o ambiente vibrar.

Falei para o chefe que havia reféns fugindo pelo fundo da casa, e fui para lá.

Havia um muro que era uma parede alta e larga. Eu tinha medo de escalá-la e fugir por cima. Eu me sentia inábil em andar sobre um muro de meio metro de largura, aí pensei: Pô, já fiz coisa bem mais difícil na vida, vou tentar.

No momento em que me decidi a me aventurar a subir no muro, à procura de minha liberdade, percebi uma alegre sonata sinfônica de fundo, pensei: Beleza; vou aproveitar e curtir a música.

Subi no muro e comecei a andar. Os primeiros passos foram difíceis, medo, mas me desenvolvi rápido. Andei alguma distância e então cheguei a uma descida. A rampa tinha uma forma parabólica, assintótica com a horizontal, era composta por tábuas transversais com forma e função de teclas de piano, como se fosse um grande instrumento. Escorreguei de pé por elas, o som das teclas de piano sobrepujava o da alegre sinfônica presente no ambiente.

Saí em uma linda chácara, havia muitas pessoas, em belos trajes de passeio, distribuídas em pequenos grupos. Ao chegar ao chão da chácara, todos me olharam assustados, como se eu tivesse saído de um portal.

Fui calmamente andando embora, curtindo a música sinfônica ambiente.

A CEGONHA

Maria Inês S. Parada, assemblagem*, 2011.

Representação da poesia de Annibal Theophilo, com a colaboração de um desenho do seu neto A.F.P..

*Assemblagem ou samblagem é um termo criado por Jean Dubuffet em 1953 para descrever trabalhos que, são mais que simples colagens. A assemblage é baseada no princípio que todo e qualquer material pode ser incorporado a uma obra de arte, criando um novo conjunto sem que este perca o seu sentido original. É uma junção de elementos em um conjunto maior, onde sempre é possível identificar que cada peça é compatível e considerada única.

Cegonha
A Cegonha
A Dança
A Dança

DANÇA

O. L. B., óleo sobre tela, 1989.

Confusão, ansiedade, depressão… não resposta aos tratamentos.

Poucas palvavras, papel, “giz de cera de má qualidade (sic.)”.

Os desenhos se sucedem; esta atividade só ocorria na presença do terapeuta.

Com a “Dança” (aqui uma reprodução em óleo sobre tela de seu próprio desenho) L. se dá alta.  Ele sente-se em condições de voltar ao trabalho, ao convívio social.

Surpreendentemente o artista não percebe que nesta tela, na união, no centro do casal, há um útero, um feto, uma nova vida.

MIRAGEM

S. A. N., assemblagem, 2011.

O beduíno procura na miragem um oásis, uma luz, a sua salvação, o sentir existir, um sentido para a sua vida.

O tornar constante estes momentos fugidios, o interiorizá-los,  parece uma trilha a ser percorrida.

Embora Miragem, ela não deixa de ser uma esperança.

Miragem
Miragem
Janus_Katatora

JANUS KATATORA


Anônimo, escultura em argila, 2010.

Deusa Africana, utilizado como oráculo, 2010.

“Modelar é psicanalisar”.

O CHEIRO

E. L. J., pintura pastel, 2011.

Na terapia surge a necessidade de um contato mais íntimo; o que é a intimidade?

Daí várias associações, entre estas o cheiro.

Como pintar um cheiro? Você já pintou um cheiro? Surge a obra O Cheiro.

O Cheiro
O Cheiro
Esquartejado / Análise
Esquartejado / Análise

ESQUARTEJADO – 01

E. L. J., pintura acrílico sobre tela, 2011.

O caminhar da vida acaba dispersando muitas coisas, objetos, afetos, aos quais ainda nos sentimos ligados.

ANÁLISE – 02

E. L. J., pintura acrílico sobre madeira, 2011.

No encontro terapêutico, a preocupação com os pedaços e a tentativa de integrá-los.

Na outra face um pressiona por algo que lhe alivie a dor e o outro se sente imobilizado pela compreensível pressa.

CASA DE DIFÍCIL ACESSO

E. L. J., pintura sobre vidro, 2010.

Dentro de si um mundo sombrio. Dificuldades emocionais, ansiedade, perdas e tristeza.  A resiliência surge somente como teoria.

Na vida prática, sozinho, na lama do mundo muitas vezes hostil. Verso e reverso dolorosos, uma transparência vitria que o artista numa mesma paisagem tenta representar.

O varal com roupas secando indica que a vida continua.

Casa de Difícil Acesso
Casa de Difícil Acesso
Winner e Looser
Winner e Looser

WINNER E LOSER

Maria Inês S. Parada, assemblagem, 2005.

Será que é possível o equilíbrio entre eles dentro da mesma pessoa?

Como definí-los, se não pela arte?

Nos extremos e de uma forma caricata um sente-se prisioneiro de seus propósitos quase únicos, onde a sensibilidade, a criatividade, se existem, ficam em função de um objetivo de poder, de domínio. O outro fica emaranhado nestas mesmas redes, tendo as vezes dificuldades de sobreviver na vida prática.

Num lado o ouro, moedas, no outro sonhos, lembranças, propósitos, criatividade…

“Homens de mármore me fitam; que Deus nos ajude. O que foi que fizeram com vocês?”  Goethe

“Assim vivo; e se alguém te perguntasse, Canção, como não morro, podes-lhe responder que porque morro”.  Luís de Camões

“Nunca houve coisa tão perigosa ou tão excitante como a ortodoxia. Era a sanidade: e ser são é mais dramático do que ser louco”.  Gilbert Keith Chesterton

INÍCIO, MEIO, FIM, ALIÁS, COMEÇO.

I., desenho, 2007.

Como lidar com monstros, senão, se empedrando?

Do tronco empedrado saem fantasmas que para ele retornam. Parece uma sem saída.

Do nada, quando a possibilidade de vida criativa pareceu exaurida surge uma nova força, um caminho estreito, mas possível.

Com desenhos, mais que com palavras I. descreve um roteiro de vida dentro e fora dele que procura percorrer. Só a arte consegue iluminar e talvez traduzir este percurso.

“Quem desperta, como faço eu, os piores demônios incompletamente domados no fundo da alma humana, afim de confrontá-los, deve estar preparado para não ser poupado nesta luta.” S. Freud

Início, Meio, Fim, Aliás, Começo
Início, Meio, Fim, Aliás, Começo
Faces da Mente
Faces da Mente

FACES DA MENTE

Maria Inês S. Parada, assemblagem, 2008.

Una e múltipla a mente contém simultaneamente numa linguagem nem sempre entendivel sua origem,  um tênue fio condutor, sofrimento e lágrimas, a arte que tenta representá-la, e uma vela-chama de esperança, onde talvez resida a alegria.

Assim se sucedem a origem (óvulos de anêmonas-sêmem), planulas, um fio, avermelhado contido em invólucro vítreo e quebradiço, Michelangelo na criação do homem procurando lembrar uma origem divina da vida, frágil invólucro de madeira, palha e gelo envolvendo sofrimentos, lágrimas, lágrimas, lágrimas…, mas também uma chama cujo brilho luta para que a vida não desapareça.

Maria Inês, através da sua arte, num vislumbre, num sonho, mostra como uma face quebradiça e recortada tenta usando um óculos mágico reunir estes labirintos talvez sem saída.

“Também no interior do corpo a treva é profunda, e contudo o sangue chega ao coração, o cérebro é cego e pode ver, é surdo e ouve, não tem mãos e alcança, o homem, claro está, é o labirinto de si mesmo”. José Saramago

“Sentia e sinto que a própria vida é brilhante como o diamante e quebradiça como a vidraça”

“O caso não é que este mundo seja soturno demais para se amar ou alegre demais para não se amar; o caso é que quando uma coisa se ama a sua alegria é uma razão para a amar e a sua tristeza é uma razão para a amar ainda mais”. Gilbert Keith Chesterton

“Um sonho, então, é uma psicose, com todos os absurdos, delírios e ilusões de uma psicose. Uma psicose de curta duração sem dúvida, inofensiva, até mesmo dotada de uma função útil, introduzida com o consentimento do indivíduo e concluída por um ato de sua vontade. Ainda assim, é uma psicose e com ela aprendemos que: Mesmo uma alteração da vida mental tão profunda como essa pode ser desfeita e dar lugar a uma função normal”.  S. Feud 

ESQUIZOABAPORU

P. S. Lopes Karniol, escultura tridimensional em argila, 2011.

Encontro psicoterapêutico, biografias, um momento em comum, o explodir de uma nova vida, a busca da criatividade, de sua representação.

ABAPORU

Tarsila do Amaral – 1928.

A incorporação da cultura européia, sua canibalização, junção com elementos próprios e a criação de uma arte verdadeiramente nacional.

Esquizo Abaporu
Esquizo Abaporu

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