Dr. Isac Germano Karniol, Prof. Títular em Psiquiatria Clínica pela FCM-UNICAMP (Aposentado), Dr. em Ciênicias pela Escola Paulista de Medicina, com Pós-doutoramento na Dinamarca e Inglaterra.
1983 – Comemoração dos 50 anos da Escola Paulista de Medicina – EPM. Presença além de um Ministro de outras autoridades, cientistas, alunos e professores que pertenceram a primeira turma de formandos… Inauguração INFAR-INSTITUTO NACIONAL DE FARMACOLOGIA dirigido pelo Dr. José Ribeiro do Vale. O objetivo era possibilitar a produção local de matérias-primas para uso na indústria farmacêutica. O prestígio da EPM era assegurado pela sua produção científica reconhecida internacionalmente. Neste sentido Eugene Garfield, Presidente do Intituto para informação Científica dos Estados Unidos, publicou na Revista “Current contents” um artigo focalizando a produção científica do denominado Terceiro Mundo. Ele fez um levantamento dos estudos, cerca de 16.000 trabalhos divulgados por respeitadas publicações científicas de autores que pertenciam a 93 países. Deste total ele selecionou os 23 estudos mais conhecidos citados na produção científica internacional. Entre estes estavam incluídos 04 de autores brasileiros, 02 da EPM. Um deles era I.G.Karniol and E.A. Carlini: Pharmacological Interaction between Cannabidiol and delta-9 Tetrahydrocannabinol, Psychopharmacologia (Berl.) 33 , 53-70, 1973. Este trabalho também foi posteriormente citado numa revisão sobre a possibilidade do uso terapêutico de derivados da Canabis (maconha) como sendo um “Seminal Work”, aquele que dá origem a um novo ramo do conhecimento.
Será que o mérito maior disto seria contribuir para o progresso da ciência em geral e em particular aquela liderada pelos países desenvolvidos ou ela traria benefícios para o nosso país? Com certeza isto também aconteceu, pois o desenvolvimento científico e tecnológico é estimulado bem como existe uma contribuição para a formação de cientistas e professores capacitados. Na pesquisa sobre a maconha no Brasil várias gerações se sucederam; ela foi iniciada pelo Dr. Ribeiro do Vale com quem o Dr. Carlini iniciou sua formação. O Dr. Ribieiro do Vale me chamava de seu neto científico, já existindo atualmente bisnetos, tataranetos…. Takahashi e Zuardi seriam bisnetos, sendo que este e seus seguidores desenvolveram pesquisas consistentes sobre o uso clínico do Canabidiol (CBD). A energia e criatividade que propulsiona este processo tem no Dr. Carlini o vetor fundamental.
Foi dentro deste clima efervescente de cientificidade que entrei inseguro como estudante de Pós-graduação em Psicobiologia sobre a orientação do Dr. Carlini; eu trabalhei inicialmente com Catatônia experimental para posteriormente iniciar pesquisas com a maconha. O Dr. Carlini tinha entre várias linhas de pesquisa uma sobre o uso de modelos para estudar doenças mentais, e o efeito de drogas em seres humanos. Minha tese de doutoramento abordou o uso destes testes para prever a ação da maconha e Delta-9 THC em voluntários “normais”. Um dos membros da banca, o Professor Enzo Azzi publicou a tese completa na Revista de Psicologia Normal e Patológica da qual era o Editor. Para ele era um modelo de pesquisa que deveria se estender para a Psicologia e Psiquiatria no Brasil.
Nesta tese verificamos que a ação da planta não poderia ser atribuída ao teor de Delta-9 THC, seu principal e reconhecido princípio ativo, o que contestava grande parte das publicações publicadas até então, principalmente aquelas no homem. A partir daí outros canabinóis, canabidiol (CBD), canabinol (CBN) e Delta-8 THC foram pesquisados, não somente sobre a possibilidade de terem ações próprias como serem capazes de influenciarem os efeitos do Delta-9 THC. Destes os trabalhos com CBD foram os mais promissores, pois ele tinha alguns efeitos per se, como também interferia na ação do Delta-9 THC. Neste caso a ação ansiogênica era atenuada, acentuando-se o efeito prazeroso. Em conjunto mais de 50 trabalhos foram publicados abordando estas interações. O uso terapêutico do CBD começava a ser delineado.
Nestas pesquisas e em outras lideradas pelo Dr. Carlini confirmava-se o que o Dr. Ribeiro do Vale vaticinava: “Se você colocar maconha em uma mesa nada vai acontecer, ela em si é inerte. Tudo depende do ser humano que vai usá-la”. Através dos tempos a maconha foi usada como remédio, com finalidade hedonística e a proibição do seu uso servia como cobertura de valores morais, religiosos e políticos. No Brasil os escravos traziam suas sementes escondidas nos cabelos, uma tentativa de conservar sua cultura de origem. A ciência moderna interessa-se pela possibilidade dela e seus constituintes serem utilizados como remédios e quais seriam as eventuais ações intoxicantes concomitantes.
Rollister um dos líderes mundiais na pesquisa psicofarmacológica inclusive sobre a Canabis assinalou que três eram as razões pelas quais o número de publicações científicas sobre esta planta tinha tido um crescimento exponencial a partir dos anos 70:
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- Importância social da droga;
- Possibilidade da execução de estudos mais precisos devido ao desenvolvimento de métodos químicos para a dosagem dos princípios ativos e;
- Fundos econômicos em larga escala postos a disposição.
Sempre acompanhando a literatura científica e procurando desenvolver pesquisas pioneiras Carlini e seus seguidores contribuíram muito para o conhecimento nesta área. Comparo o papel de Carlini como pesquisador, como sendo semelhante àqueles que na Cultura participaram da Semana de Arte Moderna em 1922. Ele valorizando a qualidade antropomorfizou o que vinha de países desenvolvidos levando ao mesmo tempo em conta as condições e o que havia de genuíno nele e no nosso meio. Com isto teve um grande destaque em pesquisa internacionalmente e no nosso país. A partir dos anos 70 ele já estava preparado para com igualdade competir com os maiores centros de pesquisa no mundo. Para isto foi necessário muito esforço e dedicação com o que ultrapassou barreiras quase intransponíveis.
Alguns aspectos não por recomendação, mas pelo exemplo ele transmitiu aos seus alunos, futuros cientistas:
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- Nunca publicar ou divulgar algo que não seja original; ao completar uma fase da pesquisa é necessário fazer uma revisão, numa Revista Nacional. Esta é uma forma de retribuir o apoio que recebia.
- Pesquisar é como colher trigo. Os que a iniciam ficam com a parte maior e mais importante. Aos outros somente sobram grãos dispersos.
- Pesquisar é fundamental para ser um bom professor.
- Não somente certezas, mas dúvidas resultam do trabalho de um verdadeiro cientista.
- Não pensar que sem preparo é possível acordar pela manhã e rapidamente ser capaz de fazer uma grande descoberta.
- Ao apresentar ou escrever um trabalho é preciso persistência. É necessário entender o que você produziu.
- A pesquisa em grupo somente é viável quando a importância de cada um for levado em conta.
- O grande sonho é contribuir pela ciência para que o Brasil se desenvolva.
Minha experiência com o Carlini contribuiu muito para o meu desenvolvimento pessoal e profissional. Sou muito grato!
